Governabilidade de Lula exige articulação ampla no Congresso e negociações além da Esplanada Com oposição fortalecida e novo peso do Legislativo, terceiro mandato do presidente precisará de diálogo constante com o Centrão e pactos minuciosos para aprovar pautas prioritárias. A expressiva votação obtida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito com 64 milhões de votos — o maior número absoluto da história das eleições presidenciais brasileiras —, não será garantia de facilidade na condução de seu mandato. Diante de um Congresso Nacional com a oposição fortalecida, a governabilidade exigirá articulação política permanente, construção de alianças amplas e negociações detalhadas que ultrapassam os limites tradicionais da Esplanada dos Ministérios. Os desafios que se impõem ao Executivo para assegurar a estabilidade institucional e a aprovação de projetos foram o foco central do Seminário Brasil 2027 – Desafios do Novo Ciclo, promovido recentemente pela Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. O evento reuniu cientistas políticos e especialistas para debater o cenário político que emergiu das urnas, marcada pelo avanço expressivo de forças conservadoras e de direita no parlamento. Um dos principais obstáculos para a formação de uma base governista sólida é a consolidação de representantes ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados e no Senado. Somando legendas como o PL, o Progressistas (PP) e o Republicanos, a direita passa a controlar mais da metade das cadeiras do Congresso Nacional, cenário que altera profundamente a dinâmica de poder em Brasília, conforme apontou Lúcio Rennó, professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília. Segundo o acadêmico, o modelo clássico em que o presidente da República assume o governo com mandato direto para implementar políticas públicas sofreu forte desgaste ao longo das últimas décadas. Reformas institucionais sucessivas acabaram por desequilibrar a balança política em favor do Poder Legislativo, reduzindo a margem de manobra do Executivo e impondo a necessidade de pactos constantes para cada votação de relevância nacional. A complexidade do cenário é agravada pela postura da oposição. Para Cláudio Couto, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, o governo enfrentará um bloco parlamentar disposto a adotar táticas de obstrução e sabotagem institucional. O cientista político classifica o grupo como uma direita anti-Estado Democrático, que frequentemente recusa a legitimidade do adversário político e opera na lógica do confronto sistemático. Couto ilustra a resistência ao citar impasses gerados em torno de propostas econômicas do governo, a exemplo da reforma tributária. O especialista aponta que votações importantes sofreram oposição obstinada simplesmente por partirem da gestão federal, mesmo quando continham pontos de convergência com alas do próprio campo bolsonarista, como demonstrado pelo posicionamento do senador Ciro Nogueira. Nesse tabuleiro fragmentado, os partidos de centro, agrupados sob a denominação genérica de Centrão, assumem papel estratégico para a sobrevivência política da gestão. A negociação com essas siglas será o fiel da balança para viabilizar projetos na Câmara dos Deputados e no Senado. O primeiro grande termômetro dessa articulação ocorrerá em fevereiro, durante as disputas pelas presidências das duas Casas legislativas, cujos resultados definirão o tom da agenda governamental. Conforme ressaltou Lúcio Rennó, o controle da agenda legislativa, a gestão de indicados para tribunais superiores como o Supremo Tribunal Federal e a distribuição de verbas oriundas de emendas parlamentares concentram-se atualmente nas mãos dos presidentes da Câmara e do Senado. Desse modo, o diálogo com os caciques partidários tornou-se condição incontornável para o funcionamento da máquina pública. Apesar da centralidade do Centrão, a coordenação política interna ao governo também precisará de ajustes finos. Especialistas apontam que ministros e autoridades indicados por partidos aliados precisam atuar ativamente na base para blindar os projetos do Executivo. A tendência, contudo, é que os textos enviados ao Congresso já nasçam moldados pelas negociações prévias com os diferentes grupos aliados, exigindo debates exaustivos em torno de cada termo das propostas. Na avaliação de Cláudio Couto, o Congresso atual buscará interferir profundamente nos textos legais, transformando o produto final da atividade legislativa em uma obra compartilhada entre os interesses do Palácio do Planalto e a sua base parlamentar. Nesse processo de mediação constante, a Casa Civil desponta como o órgão vital para harmonizar as demandas divergentes entre os partidos representados tanto na Esplanada quanto no Parlamento. Apesar do quadro adverso, discursos recentes do presidente Lula apontam para a confiança na construção de pontes institucionais com o Legislativo. Os analistas relembram que, mesmo com um cenário eleitoral inicialmente desfavorável após o primeiro turno, o terceiro mandato conseguiu costurar aprovações de peso, a exemplo do avanço na pauta do fim da escala de trabalho de seis dias por semana. Para além das articulações tradicionais nos gabinetes de Brasília, a sustentação da agenda governamental e a defesa de preceitos democráticos poderão contar com o engajamento da sociedade civil, conforme avalia Talita Tanscheit, professora do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio. A pesquisadora defende que o Partido dos Trabalhadores mantenha laços estruturais e permanentes com movimentos progressistas, reinserindo esses setores de forma ativa no centro do debate político nacional. A ampliação de mecanismos participativos, como conselhos e conferências de gestão compartilhada, é apontada como um caminho viável para contrabalançar a hostilidade legislativa por meio de inovações democráticas. Tanscheit destaca que o segundo turno das eleições recentes recolocou em evidência um ator social que permanecia recolhido desde o período mais crítico da pandemia de covid-19, inaugurando um ciclo inédito de mobilizações populares na América Latina voltadas diretamente para a expressão no voto. No horizonte político, os analistas alertam ainda para potenciais atritos decorrentes de pautas caras à extrema-direita, que devem ser instrumentalizadas nas negociações com o governo. Entre os temas que tendem a pressionar o Executivo estão propostas de alteração na legislação penal, como a redução da maioridade penal, vista por especialistas como uma alternativa intermediária negociável frente a pleitos mais radicais de restrição penal a menores de idade. O debate institucional também recai sobre o Poder Judiciário, alimentado por críticas frequentes à atuação do Supremo Tribunal Federal e por episódios envolvendo ministros da Corte. Segundo Lúcio Rennó, a expressiva bancada conquistada pelo PL no Senado reflete o descontentamento de parcelas expressivas da população com o tribunal, o que reabre espaço na arena política para discussões sobre o estabelecimento de mandatos para ministros da mais alta corte do país e a eventual tramitação de pedidos de impeachment.
Fonte: Últimas notícias agência Brasil







