Como as baleias-jubarte saíram da beira da extinção para um salto histórico de 35 mil animais no litoral brasileiro De quase extintas no século passado a uma população de 35 mil indivíduos, as gigantes dos mares revelam como a ciência, o ativismo e o monitoramento contínuo transformaram o Brasil em um santuário global de preservação da espécie. O catamarã Pegasus I rompe as águas do cais de Caravelas, no sul da Bahia, ao nascer do sol com destino ao arquipélago dos Abrolhos, um dos principais redutos de biodiversidade marinha da costa brasileira. A cinco horas de navegação da costa, passageiros e pesquisadores praticam o chamado “baleiar”, acompanhando o rastro das baleias-jubarte que abandonam as águas gélidas da Antártica todos os anos para acasalar e parir nos trópicos. O primeiro indício da presença dos animais é o borrifo no horizonte, na verdade a condensação do vapor da respiração quente ao encontrar o ar frio da superfície, um espetáculo que há quase quatro décadas mobiliza cientistas do Instituto Baleia Jubarte em expedições de monitoramento, coleta de dados e biópsias em alto-mar. A história dessa recuperação populacional, no entanto, é marcada por décadas de exploração e por uma reviravolta histórica iniciada na redemocratização. Desde os tempos do Brasil colônia, as jubartes foram caçadas implacavelmente para a extração de gordura, transformada em óleo combustível para iluminação. A caça comercial só foi proibida no país em 1987, após intensa pressão de ativistas e especialistas como o médico veterinário Milton Marcondes, atual diretor de pesquisas do instituto. A proibição evitou o extermínio total, mas deixou a espécie criticamente ameaçada de extinção e cercada por uma imensa lacuna de dados científicos sobre seus hábitos reais. Um ano após o fim da caça, durante os trabalhos para a implantação do Parque Marinho de Abrolhos, pesquisadores liderados pelo fotógrafo Enrico Marcovaldi e pela bióloga Márcia Engel descobriram o pequeno reduto sobrevivente na região e fundaram o Projeto Baleia Jubarte. Nas primeiras estimativas populacionais realizadas no início da década de 1990, a contagem apontava entre 1,5 mil e 2 mil animais. O cenário começou a mudar radicalmente com a formalização do instituto em 1996 e o patrocínio contínuo da Petrobras, que permitiu expandir a atuação para toda a costa brasileira. Em 2014, a espécie finalmente deixou a lista oficial de animais ameaçados de extinção no Brasil, consolidando um dos maiores sucessos de conservação marinha da América Latina. A contagem mais recente, baseada em sobrevoos realizados entre São Paulo e o Rio Grande do Norte, registrou o recorde de mais de 35 mil baleias na estimativa de 2022. Para o fundador Enrico Marcovaldi, oscilações anuais nas contagens não representam retrocesso, mas refletem a própria dinâmica cíclica das temporadas migratórias, em que os animais avançam mais para o Sul ou alcançam regiões mais profundas do Nordeste. Atualmente, o monitoramento conta com o auxílio de plataformas colaborativas de inteligência artificial capazes de cruzar registros fotográficos da cauda de cada animal — cuja marcação funciona como uma verdadeira impressão digital — com bancos de dados internacionais. Apesar do sucesso numérico, o diretor-executivo do Instituto Baleia Jubarte, Eduardo Camargo, alerta que os desafios atuais exigem harmonizar a atividade humana com a preservação dos cetáceos. A proliferação de microplásticos nos oceanos e os impactos das mudanças climáticas globais sobre a disponibilidade de krill, o minúsculo crustáceo que serve de base alimentar para as jubartes na Antártica, tornaram-se os novos focos de investigação científica. Para dimensionar esses reflexos, o instituto mantém parcerias estratégicas com universidades públicas e programas de pós-graduação, reunindo dezenas de mestrandos e doutorandos dedicados a analisar desde a condição corporal dos animais por meio de imagens de drone até padrões inéditos de comportamento protetivo de fêmeas com filhotes. A sólida base de dados acumulada ao longo de trinta anos também transformou o instituto em um órgão consultivo essencial para a formulação de políticas públicas e diretrizes corporativas no setor privado. Com financiamentos recentes da ordem de R$ 30 milhões para ciclos quadrienais, a Petrobras utiliza o conhecimento gerado pelos pesquisadores para redesenhar rotas de navegação e operações em terminais marítimos, como o de São Sebastião, em São Paulo, evitando o cruzamento com as rotas migratórias dos animais. Para os cientistas que dedicam a vida a acompanhar o périplo das jubartes, o trabalho deixou de ser apenas uma paixão pessoal para se consolidar como um serviço público indispensável à preservação dos oceanos brasileiros.
Fonte: Últimas notícias agência Brasil







