Eleições 2026: Deepfakes dominam redes sociais e desafiam Justiça Eleitoral antes do primeiro turno Levantamento inédito do projeto VigIA aponta centenas de vídeos e imagens manipuladas por inteligência artificial, revelando forte presença de perfis anônimos e descumprimento de regras de sinalização na campanha. O uso de inteligência artificial generativa nas redes sociais ganhou proporções expressivas durante a corrida eleitoral para o primeiro turno das eleições gerais de 2026. É o que aponta um levantamento detalhado divulgado nesta quinta-feira (1º) pelo projeto VigIA, iniciativa voltada ao monitoramento do impacto de ferramentas tecnológicas no pleito. De acordo com os dados coletados, centenas de publicações com conteúdos manipulados circularam amplamente na internet, evidenciando tanto a capilaridade da tecnologia quanto as dificuldades enfrentadas pelos órgãos fiscalizadores para conter a onda de desinformação visual e sonora. O monitoramento, conduzido pela agência de checagem Lupa em parceria com o Laboratório de Inteligência Artificial do Recod.ai, vinculado à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), colocou sob escrutínio o ecossistema digital político entre os dias 16 de agosto e 28 de setembro. Nesse intervalo, o projeto identificou um total de 1.941 conteúdos político-eleitorais classificados como suspeitos. Após uma triagem rigorosa que empregou três ferramentas distintas de detecção de IA aliadas à análise humana de pesquisadores, o projeto confirmou 920 casos em que a tecnologia foi efetivamente utilizada para criar ou modificar mídias. Desse montante consolidado, a categoria que mais chamou a atenção dos especialistas foi a das chamadas deepfakes — conteúdos produzidos ou editados com inteligência artificial que utilizam a imagem ou a voz de pessoas reais, fazendo com que apareçam proferindo declarações ou executando ações que jamais aconteceram na realidade. As deepfakes representaram nada menos do que 60% de todas as publicações confirmadas com uso de inteligência artificial no período analisado, acumulando 554 registros entre vídeos e imagens. Entre os formatos mais recorrentes identificados pelos pesquisadores estão produções audiovisuais em que jornalistas conhecidos parecem anunciar notícias completamente inventadas, além de clipes falsificados em que celebridades supostamente declaram apoio a determinados candidatos. Diante do potencial de desinformação, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu proibições severas à circulação desse tipo de material. A legislação eleitoral prevê punições rigorosas que podem culminar na cassação de mandatos ou de candidaturas para os responsáveis. Contudo, a corte também impôs ressalvas jurídicas para a aplicação das sanções: para que a infração seja caracterizada, é necessário que o conteúdo configure propaganda política e apresente verossimilhança suficiente para induzir o eleitorado ao erro. Apesar do cerco legal, o levantamento do projeto VigIA aponta que o cumprimento das normas está longe do ideal. A legislação em vigor permite o uso de inteligência artificial na campanha, desde que as peças criadas ou modificadas com o auxílio dessas ferramentas estejam devidamente sinalizadas para o público. No entanto, o relatório demonstra que a maioria dos criadores ignorou essa obrigação. Dos 920 conteúdos validados com o uso de IA, apenas 371 contavam com algum tipo de rotulagem clara informando sobre a intervenção tecnológica, o que representa cerca de 40% do total. Por outro lado, 549 publicações foram classificadas como irregulares por omissão de sinalização. Destas postagens que desrespeitaram a exigência de transparência, 75 partiram diretamente de perfis oficiais de candidatos ou de partidos políticos. Ao todo, 29 deepfakes foram disseminadas pelas próprias contas de agentes políticos, o que pode resultar nas sanções previstas pelo TSE. Um dos maiores obstáculos apontados pelos pesquisadores reside na identidade dos disseminadores. A grande maioria das postagens falsas — exatos 525 registros — foi veiculada por usuários comuns, um grupo que engloba um vasto número de perfis anônimos na internet. Para Beatriz Farrugia, pesquisadora responsável pelo relatório, essa característica impõe um desafio monumental para a aplicação efetiva da lei eleitoral e para a integridade do pleito. Conforme avalia a pesquisadora, caso o objetivo seja barrar categoricamente a circulação de deepfakes devido aos riscos evidentes que representam para a compreensão pública dos fatos políticos, torna-se imperativo lidar com o fato de que a maior parte do material tem origem em contas de pessoas comuns e avatares sem identificação clara. Na visão de Farrugia, para contornar esse obstáculo, a Justiça Eleitoral precisaria atuar em estreita colaboração com as plataformas de redes sociais na tentativa de rastrear e identificar os responsáveis por trás dessas contas. A análise global dos dados coletados pelo VigIA também traça um panorama sobre as finalidades e os alvos preferenciais das peças turbinadas por inteligência artificial. A promoção direta de candidaturas despontou como o objetivo mais frequente, aparecendo em 414 dos 920 casos confirmados, o equivalente a 45% do total. Em contrapartida, um quarto de todo o material analisado consistia em ataques direcionados a candidatos ou a terceiros, enquanto outra fatia expressiva — também próxima de 25% — foi dedicada a conteúdos de humor ou sátira. O cenário político nacional concentrou as atenções dos criadores de conteúdo sintético, com forte ênfase na disputa pela Presidência da República. O atual presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, figurou como a principal personalidade retratada nas peças monitoradas, aparecendo em 379 publicações. Em segundo lugar no ranking de aparições ficou Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula no escopo do monitoramento, com 190 menções. O tratamento dado pelas peças de inteligência artificial a esses dois principais nomes apresentou nuances distintas. No caso de Luiz Inácio Lula da Silva, 39% das postagens com sua imagem tinham caráter humorístico ou satírico, enquanto 34% concentravam-se em ataques diretos à sua candidatura. Já no material que retratava Flávio Bolsonaro, a tendência foi outra: 40% das publicações tiveram como foco favorecer sua imagem perante o eleitorado, ao passo que 28% trouxeram abordagens voltadas ao humor ou à sátira. Em termos de autoria geral, a predominância de usuários comuns permaneceu como marca registrada da campanha monitorada, respondendo por 47% dos autores identificados. O relatório chama a atenção para o fato de que perfis desconhecidos foram responsáveis por 27% das publicações, superando inclusive a proporção originada nas contas oficiais de candidaturas, que representaram 24,5% dos autores das peças com inteligência artificial. Para Cristina Tardáguila, fundadora e gerente de Inteligência e Formação da Agência Lupa, os números consolidados pelo projeto demonstram que a inteligência artificial deixou de ser um fenômeno restrito a eventos isolados para se incorporar definitivamente ao cotidiano da comunicação política brasileira. Tardáguila pontua que a frequência com que esses materiais surgem — registrando quase um conteúdo gerado ou modificado por IA a cada hora — e a escassez de sinalização adequada dimensionam a complexidade do problema, criando um cenário desafiador tanto para a formação de opinião do eleitor quanto para a atuação dos órgãos fiscalizadores encarregados de zagar pela lisura das eleições.
Fonte: Últimas notícias agência Brasil







