Racismo na indústria do som: estudo aponta desigualdade salarial e “higienização” de áudios no audiovisual brasileiro Lançado durante o Novembro Negro, dossiê inédito realizado por organizações privadas revela padrões coloniais, exclusão de profissionais negros em cargos de liderança e imposição de normas técnicas que silenciam marcas culturais afro-brasileiras. A indústria do som e do audiovisual no Brasil opera sob forte influência de padrões coloniais, elitistas e de origem europeia, que se manifestam desde a exigência técnica de “higienização” dos áudios até disparidades salariais e barreiras para a ocupação de cargos de tomada de decisão por profissionais negros. É o que aponta o dossiê inédito “A Cor do Som”, lançado nesta semana em alusão ao início do Novembro Negro, mês dedicado à Consciência Negra. O estudo foi desenvolvido por duas instituições privadas de combate ao racismo — a Semiótica Antirracista e o Estúdio Nina —, com o apoio da empresa Audiolivros, e joga luz sobre as dinâmicas excludentes que moldam a produção sonora no país sob a premissa de que “não existe voz de preto nem voz de branco”. Para estruturar o levantamento, os pesquisadores ouviram 24 pessoas, contemplando 18 profissionais negros que atuam tanto nas frentes técnicas quanto criativas do setor, quatro acadêmicos e duas personalidades engajadas no debate racial cujas identidades foram mantidas em sigilo. Embora o documento não apresente dados quantitativos, as percepções e relatos coletados desenham um panorama consistente de desigualdades no mercado de trabalho de produtoras, estúdios e agências de publicidade, além de expor as barreiras impostas às narrativas e estéticas afro-brasileiras. Um dos pontos centrais abordados pelo dossiê é a exigência técnica de “limpar o som” nas produções audiovisuais brasileiras. De acordo com os autores, as operações de áudio seguem cartilhas baseadas em regras que buscam um som o mais higienizado possível, descartando propositalmente ruídos periféricos e interferências da rua, da praça e do povo. Para a pesquisa, essa prática configura uma tentativa sistêmica de apagar as marcas culturais afro-brasileiras e reforça a necessidade urgente de desconstruir o mito da neutralidade técnica nas produções sonoras. Na mesma linha, o estudo aponta que o tratamento dado à linguagem nos produtos finais consolida hierarquias entre diferentes modos de falar. Os autores destacam a prevalência de uma norma padrão que reduz a pluralidade à indignidade do erro, ignorando legados históricos como o conceito de “Pretuguês”, cunhado pela intelectual e ativista Lélia Gonzalez. Conforme o dossiê, trata-se de um modo de falar português marcado por elementos fonéticos e sintáticos de línguas africanas que frequentemente são tratados como um escárnio, a exemplo da substituição do “L” pelo “R” em palavras como “probrema” ou a troca do “LH” por “I” como em “faia”. No que tange ao mercado de trabalho, os relatos colhidos pelos pesquisadores revelam um cenário de precarização e desvalorização dos trabalhadores negros. Entre as principais queixas listadas estão a disparidade salarial em funções equivalentes, onde profissionais negros recebem menos que os brancos; contratações motivadas justamente pela aceitação de remunerações menores; dificuldades para negociar valores compatíveis com a própria qualificação; sobrecarga de trabalho como exigência para demonstrar competência; e a falta de reconhecimento institucional mesmo diante da responsabilidade direta pelo desenvolvimento de projetos. Os impactos dessas barreiras aparecem em relatos como o de um profissional da área criativa que acumulava funções de produção de palco, ligações telefônicas, edição e captação. Ao reivindicar uma remuneração justa para sua qualificação, ele foi demitido por e-mail, sob a justificativa de que a empresa não tinha condições de arcar com seu salário, sendo substituído em seguida por uma influenciadora branca. Outro depoimento destacado no documento aponta a invisibilização dentro das equipes, onde o profissional responsável pelo desenvolvimento do projeto era o menos ouvido e precisava constantemente confrontar a equipe para validar seu próprio conhecimento técnico. O levantamento também aponta uma divisão racial rígida nas funções do setor, com profissionais negros sendo majoritariamente relegados a trabalhos braçais e técnicos, enquanto os espaços de criação, pensamento e tomada de decisão permanecem reservados a pessoas brancas. Profissionais da área de cinema relataram que, desde o início de suas trajetórias, não lhes é dada a oportunidade de contar histórias, sendo pragmaticamente limitados a funções como som, montagem e assistência de produção, o que dificulta a ascensão para cargos como a direção ou produção executiva. Outro aspecto abordado pelo dossiê é a estigmatização dos profissionais e de suas produções por meio de recortes raciais restritivos. Entrevistados relataram o incômodo de serem rotulados de forma singular e aprisionados em identidades restritas, como o “negro único”, o “jornalista negro” ou o “roteirista negro”. Além disso, os pesquisadores identificaram uma lógica perversa no mercado que classifica produções realizadas por pessoas negras como conteúdos de “nicho”, destinados exclusivamente a públicos negros, enquanto produções de pessoas brancas são tratadas sob a ótica da universalidade. Para a equipe responsável pelo dossiê, o silenciamento permanece como um dos mecanismos mais recorrentes do racismo estrutural na indústria do som. Os pesquisadores defendem que o estudo seja utilizado como uma ferramenta fundamental para repensar narrativas, fluxos de trabalho e os paradigmas que orientam toda a cadeia produtiva do audiovisual brasileiro. O objetivo central do levantamento é provocar o setor, incitando o público e os profissionais a pensarem fora da caixa, questionarem lugares-comuns e desafiarem verdades assentadas em uma discussão que, segundo o documento, ainda carece de amplo espaço na sociedade.
Fonte: Últimas notícias agência Brasil







