Exposição no Rio de Janeiro resgata o protagonismo de figuras históricas como Esperança Garcia e Luiza Mahin, conectando o passado colonial às discussões sobre racismo e desigualdade social no Brasil Mostra em cartaz no Museu Nacional de Belas Artes utiliza obras de artistas contemporâneas para reescrever a narrativa oficial da abolição da escravidão e questionar a permanência de estruturas racistas na sociedade contemporânea. Um balaio de palha posicionado sobre um pilar de tijolos de barro convida o visitante a refletir sobre a emancipação econômica das mulheres negras desde o período escravista até os dias atuais. A escultura, assinada pela artista visual Mônica Ventura, é uma das peças que compõem a exposição Abolicionistas Brasileiras, em cartaz na Sala Bernardelli do Museu Nacional de Belas Artes, no centro do Rio de Janeiro, com visitação aberta ao público até o dia 19 de dezembro. A iniciativa reúne trabalhos de arte contemporânea e peças históricas do acervo da instituição para lançar novos olhares sobre a trajetória e a importância de oito mulheres fundamentais na luta contra a escravidão no país. A lista de homenageadas abrange nomes como Anastácia, Aqualtune, Luiza Mahin, Maria Felipa, Maria Firmina dos Reis, Adelina, Esperança Garcia, Maria Tomásia e outras figuras que desafiaram o sistema colonial. As representações artísticas buscam resgatar essas personagens históricas enquanto promovem um debate profundo sobre a persistência do racismo institucional e estrutural contra as mulheres negras na sociedade brasileira. Com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, a mostra propõe uma revisão crítica da história oficial, que historicamente reduziu a abolição da escravidão no Brasil à assinatura da Lei Áurea, em 1888, atribuindo o feito exclusivamente à princesa Isabel. Segundo a curadora principal, as obras expostas estimulam o público a questionar essa narrativa hegemônica e a refletir sobre a necessidade de reconstruir uma sociedade verdadeiramente justa e igualitária, contando com a participação ativa de toda a população. Para recontar essas histórias por meio da valorização da memória ancestral, a artista Thaís Iroko buscou uma aproximação sensorial com a figura de Anastácia. Na ilustração produzida para a mostra, Anastácia aparece com os olhos vendados, em uma leitura sensível que aborda o silenciamento imposto pelo sistema escravista. Nas representações iconográficas mais conhecidas, Anastácia é retratada com a boca coberta por uma máscara de flandres, um instrumento de tortura que a impedia de falar. A curadora Ana Carla Soler aponta que o castigo físico pode ter sido motivado pelos discursos de Anastácia que incentivavam a mobilização, as resistências e as fugas, conforme sugere a teórica Grada Kilomba na obra Memórias da Plantação. A trajetória de Aqualtune, outra figura central da resistência negra, é retratada pela artista Guilhermina Augusti em dois momentos distintos de sua vida. Inicialmente, ela é apresentada como princesa, filha do rei do Congo, reconhecida por seus profundos saberes estratégicos sobre guerras. Em seguida, é retratada já na condição de cativa, envolta em adinkras e búzios, elementos que simbolizam sua força inabalável e sua sabedoria. Aqualtune exerceu papel fundamental de liderança no Quilombo dos Palmares, local onde nasceu seu neto, Zumbi, cuja data de morte, em 20 de novembro, consolidou-se como o Dia da Consciência Negra. O panorama de homenagens da exposição estende-se a Luiza Mahin, mãe de Luiz Gama e figura ativa nas revoltas populares; Maria Felipa, pescadora que desempenhou papel estratégico nas lutas pela independência na Bahia; Maria Firmina dos Reis, reconhecida como a autora do primeiro romance abolicionista brasileiro; Adelina, que atuou corajosamente como informante do movimento abolicionista no Maranhão; e Esperança Garcia, formalmente reconhecida pela Ordem dos Advogados do Brasil como a primeira advogada do país. Esperança escreveu uma carta histórica às autoridades em 6 de setembro de 1770, na qual denunciava as violências sofridas, documento que hoje é equiparado a um pedido de habeas corpus em defesa dos direitos humanos e da liberdade. A única mulher branca incluída entre as homenageadas é Maria Tomásia, reconhecida por sua atuação na fundação de uma sociedade de mulheres contrária à escravidão. O diálogo entre o passado colonial e as desigualdades do presente também se faz presente em obras que ocupam o espaço expositivo de maneira impactante. No teto da sala de exibição, a instalação Tetas que deram de mamar ao mundo, criada pela artista Lidia Lisboa, exibe um enorme seio confeccionado em crochê. A obra faz referência direta às mulheres escravizadas que atuaram compulsoriamente como amas de leite e evoca esse passado para refletir sobre a permanência histórica do trabalho doméstico e de cuidados, desempenhado majoritariamente por mulheres negras, cujos direitos trabalhistas fundamentais só obtiveram equiparação legal tardiamente no país. A gênese da exposição remonta a uma encomenda realizada ao Instituto Artistas Latinas por um colecionador particular, que se mostrou incomodado com a baixa representatividade de artistas negras em seu acervo pessoal. Ao final do processo de produção das obras encomendadas, o instituto percebeu que o material reunido possuía densidade e volume suficientes para dar origem a uma mostra circulante. A partir de então, a organização passou a articular parcerias com diferentes equipamentos culturais públicos para expor os novos trabalhos em diálogo direto com as coleções permanentes dessas instituições. Antes de ocupar o Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, a exposição já passou por importantes espaços culturais do país, como o Museu de Arte do Rio, o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, no Recife, a Casa de Cultura da América Latina, em Brasília, e o Centro Cultural São Paulo. Para a curadoria, o caráter itinerante e vivo da mostra reside justamente no desejo de esgarçar as narrativas oficiais sobre o processo de abolição e provocar os acervos museológicos brasileiros, estimulando as instituições anfitriãs a avaliarem criticamente a presença de artistas negras em suas coleções e a promoverem debates fundamentais sobre a memória nacional.
Fonte: Últimas notícias agência Brasil







