Um ano após Operação Contenção, moradores e movimentos sociais protestam no Rio por memória e justiça Ato na Penha marca o aniversário da incursão policial mais letal da história do país, que deixou 122 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, enquanto investigações do Ministério Público avançam com denúncias contra policiais. Movimentos sociais, familiares de vítimas e moradores realizam nesta quarta-feira uma manifestação na Praça São Lucas, localizada no bairro da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, para marcar um ano da Operação Contenção. Organizada pela Frente Penha, a iniciativa relembra a incursão realizada em outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, considerada a mais letal do país com o registro de 122 mortes, incluindo cinco policiais civis e militares. O ato tem como objetivo central unir a denúncia da violência do Estado ao acolhimento de familiares e da sociedade civil, mantendo viva a memória da chacina para evitar que episódios semelhantes se repitam. A mobilização também busca incentivar os moradores de regiões fortemente impactadas por operações policiais a lutarem por paz e direitos básicos em seus territórios. Para Evelin Dias, assistente social e integrante da gestão da Frente Penha, a comunidade precisa de suporte humanizado e estrutural. Segundo ela, as áreas violentadas exigem olhares de cuidado voltados especialmente para mulheres, crianças e jovens negros que sofrem violações diárias de direitos, ressaltando a necessidade de investimentos em saúde, educação e bem-estar nas favelas fluminenses. O coletivo aponta que a tragédia reflete um padrão cotidiano de violência em diversas regiões periféricas do estado. Dados do relatório “Operações policiais na Baixada Fluminense/RJ”, produzido pela Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial, indicam que foram registradas 5.298 operações entre 2020 e 2025 na Baixada, resultando em quase 300 mortos, 700 feridos, 5.783 prisões e 41 apreensões de adolescentes. O cenário de letalidade também é analisado sob o recorte racial. O estudo “Pele alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã”, elaborado pela Rede de Observatórios e Segurança, aponta que o Rio de Janeiro contabilizou 800 mortes decorrentes de intervenções policiais em 2025, sendo que 88,6% das vítimas eram pessoas negras, totalizando 588 óbitos. A programação do ato na Penha inclui um almoço comunitário pela manhã, seguido por uma caminhada pelas principais vias do bairro à tarde, com distribuição de cestas básicas para famílias locais. O evento conta ainda com depoimentos de coletivos de acolhimento a vítimas de violência estatal, como Mães de Maio, Mães de Manguinhos e Projeto Fênix, além de apresentações de música, dança, poesia, roda de capoeira, jongo, leitura de carta de repúdio e uma área de recreação infantil, encerrando as atividades com a soltura de balões em homenagem aos mortos. Enquanto a sociedade civil ocupa as ruas, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) prossegue com as investigações por meio do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp). Até o momento, o órgão ofereceu 12 denúncias contra 28 policiais militares envolvidos na Operação Contenção, acusados de crimes como furto, peculato, violação de domicílio, constrangimento ilegal, roubo e recusa de obediência, além de irregularidades no uso de câmeras corporais. O trabalho do MPRJ cumpre determinações do Supremo Tribunal Federal na ADPF 635 e envolveu a apuração de mais de 4 mil horas de gravações de câmeras corporais, 122 laudos periciais médico-legais e 262 depoimentos de agentes públicos. As equipes utilizaram técnicas avançadas de preservação tridimensional de imagens e perícias complementares no Instituto Médico Legal para confrontar relatos e reconstruir as circunstâncias das mortes com precisão. O órgão também realizou buscas ativas e acolhimento psicossocial por meio do Núcleo de Apoio às Vítimas e da Ouvidoria, colhendo dezenas de depoimentos de familiares de pessoas mortas na operação. As investigações do Gaesp revelaram falhas recorrentes na utilização das câmeras operacionais portáteis durante a ação. Na Polícia Militar, foram constatados casos de agentes sem equipamentos, baterias descarregadas e problemas de planejamento. Na Polícia Civil, apenas 62 dos 685 agentes que participaram da operação utilizaram os dispositivos. Diante das irregularidades, o procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, expediu em março recomendações para que as secretarias de Estado de Polícia Militar, Polícia Civil e de Segurança Pública aprimorem o uso das câmeras, garantam maior fiscalização, treinamento e a expansão dos equipamentos em unidades especializadas, medidas que já vêm sendo adotadas de forma gradual pelas corporações.
Fonte: Últimas notícias agência Brasil







