Soberania digital: organização brasileira desafia poder das big techs e propõe redes alternativas Comandada por especialistas em políticas públicas, jornalismo e direito digital, a entidade Ctrl+Z aposta em ações judiciais, investigações de abusos e plataformas abertas para enfrentar monopólios do Vale do Silício A crescente influência das gigantes globais de tecnologia sobre o cotidiano da população, as instituições e o debate público colocou em alerta especialistas que defendem os direitos digitais e a soberania nacional. No centro dessa discussão, a organização social Ctrl+Z surge com a proposta de confrontar o modelo hegemônico exercido pelas corporações sediadas no Vale do Silício, na Califórnia, estimulando a construção de espaços virtuais alternativos e não dependentes dos interesses comerciais dessas plataformas. A atuação das chamadas big techs é apontada como um obstáculo para que países em desenvolvimento consigam exercer plenamente suas próprias diretrizes regulatórias e jurídicas. Em avaliação recente compartilhada no programa Tarde Nacional SP, transmitido pela Rádio Nacional, o coordenador de redes sociais da Ctrl+Z, o jornalista Henrique Sampaio, destacou que essas multinacionais acumulam uma quantidade de poder desproporcional. De acordo com o coordenador, as companhias norte-americanas travam uma disputa direta para barrar a consolidação da soberania digital em território brasileiro. Para Sampaio, a pretensão dessas empresas é impor seus próprios termos de uso e diretrizes privadas de comunidade como se fossem superiores às leis estabelecidas democraticamente pelo país. Para contrapor esse cenário de dependência estrutural, a entidade civil adota um plano de ação estruturado em três frentes fundamentais: a apuração e exposição pública de abusos corporativos, o ingresso com processos e medidas no Poder Judiciário e a articulação direta com a sociedade civil. O propósito final é incentivar uma reforma profunda na indústria da tecnologia, reposicionando o bem-estar coletivo como prioridade central. A eficiência desse trabalho investigativo já apresenta resultados concretos. Em um levantamento conduzido recentemente, a organização identificou e denunciou a existência de dezenas de canais e perfis com falsos médicos em atividade na plataforma de vídeos YouTube, demonstrando falhas nos mecanismos de controle e a exposição de usuários a riscos sanitários. A capacidade técnica para conduzir confrontos complexos contra monopólios digitais está ancorada na trajetória dos profissionais que compõem a linha de frente da entidade. A liderança executiva da organização social está a cargo de Daniela da Silva, profissional que ocupou a chefia da área de Políticas Públicas do WhatsApp no Brasil, aplicativo pertencente ao conglomerado Meta. A diretoria de Programas é liderada por Tatiana Dias, repórter e jornalista investigativa com passagem pelo Intercept Brasil, onde exerceu a função de editora executiva. O setor de Litigância fica sob a responsabilidade de Luã Cruz, especialista em regulação e políticas públicas no meio digital e ex-coordenador do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec). Além de apontar irregularidades e contestar práticas comerciais nocivas perante a Justiça, a Ctrl+Z concentra esforços para reconstruir a experiência digital da população. A entidade busca reunir indivíduos de perfis plurais em redes comunitárias geridas por meio de plataformas de código aberto, as quais permitem auditoria e asseguram níveis de transparência inexistentes nos sistemas fechados das mídias sociais mais utilizadas no planeta. Segundo Henrique Sampaio, o objetivo é conseguir retirar as pessoas do confinamento exclusivo das telas, viabilizando o surgimento de uma convivência coletiva que não dependa da mediação algorítmica imposta pelas multinacionais. O jornalista pondera que a tecnologia aberta e os sistemas colaborativos sempre fizeram parte da história da internet, mas reconhece que as grandes corporações desenham suas ferramentas com recursos altamente persuasivos e capazes de criar hábitos repetitivos de uso contínuo, gerando dependência no usuário. Ao apresentar opções estruturadas fora dos padrões comerciais tradicionais, a entidade avalia que os cidadãos voltam a ter contato com a proposta original da rede mundial de computadores, lembrando que é plenamente viável sustentar um ecossistema digital mais livre, transparente e subordinado aos interesses da sociedade.
Fonte: Brasil — Agência Brasil







