O que acontece com os sonhos de infância quando a gente cresce? De policiais a jogadores de futebol, reportagem investiga como ambições dos primeiros anos de vida se transformam com o amadurecimento, ouvindo crianças e profissionais da região. “O que você quer ser quando crescer?” A pergunta, comum na rotina de crianças em idade escolar, costuma vir acompanhada de respostas imediatas e cheias de imaginação. Aos 7, 8 ou 9 anos, o futuro parece uma página em branco pronta para ser preenchida por profissões como policial, veterinária, maquiadora, jogador de futebol ou atriz. Mas, à medida que a infância fica para trás, o que realmente acontece com essas projeções? É o que buscam responder as lembranças do Dia das Crianças, celebrado em 12 de outubro, através da trajetória de seis pequenos moradores da região e de profissionais que precisaram transformar aspirações em carreiras reais. Entre as crianças que compartilharam suas ambições estão Zainabu Awal Issah, de 8 anos, e Benjamin, de 7, que sonham em vestir a farda da polícia. Gabriele de Oliveira Siqueira, de 8, imagina o futuro cuidando de animais como veterinária, enquanto Paola Inácio Gonçalves, de 7, já demonstra interesse pela profissão de maquiadora. Completam o grupo Joaquim Fernandes Cascaes, de 7, que deseja atuar nos gramados como jogador de futebol, e Amira Awall Issah, de 9, que pretende seguir a carreira de atriz. Para compreender o destino dessas vontades iniciais, a reportagem conversou com adultos que trilharam caminhos parecidos, enfrentando desafios, superando barreiras e descobrindo o significado real de transformar um desejo de infância em profissão. Para Zainabu e Benjamin, o fascínio pela segurança pública encontra eco na história de profissionais como o agente da Polícia Civil Alex Estevaldo de Souza, responsável pela delegacia de Sangão. Com quase 33 anos de instituição, ele relata que o interesse começou na adolescência, impulsionado pelo impacto visual de uma viatura em alta velocidade cruzando a Avenida Centenário, em Criciúma. A imagem marcante deu início a uma preparação rigorosa. Aos 18 anos, Alex começou a estudar para concursos, conquistando a sexta colocação entre 2,8 mil candidatos em sua primeira seleção, antes de enfrentar períodos longe da família em Florianópolis e Joinville. Com o tempo, percebeu que a realidade policial difere das referências populares de filmes e séries, exigindo responsabilidade redobrada sobre a liberdade das pessoas. Próximo da aposentadoria, ele aconselha as novas gerações a estudarem, persistirem e valorizarem os conselhos de pais e professores na construção de suas trajetórias. Na Polícia Militar, a aspirante a oficial Alice Schlickmann Rottgers do Livramento também encontrou na área uma forma de impacto social, influenciada por familiares na segurança pública. A jornada exigiu graduação em Direito, aprovação em etapas rigorosas e atuação prévia como soldado. Segundo ela, o maior desafio foi manter a disciplina nos estudos sem garantias de sucesso. Na prática, descobriu que o suporte diário e uma conversa orientadora podem ser tão transformadores quanto as situações imaginadas na infância. Enquanto alguns mantêm o rumo traçado desde cedo, outros mudam completamente de direção. O veterinário Matheus Figueredo, por exemplo, queria ser jogador de futebol quando criança, mas redirecionou seu interesse para a saúde e os animais conforme amadurecia. A rotina profissional revelou que a profissão exige intenso conhecimento técnico, estudos científicos e jornadas exaustivas, cuja recompensa se manifesta na recuperação dos pacientes e em seu retorno aos lares. A história de Matheus dialoga com o futuro de Gabriele, de 8 anos, mostrando que crescer envolve explorar novas possibilidades e aceitar que mudar de ideia não representa fracasso. O mesmo dinamismo é observado no universo da estética. Paola Inácio Gonçalves, de 7 anos, quer ser maquiadora, ecoando a trajetória de Esther Rosa, que iniciou o contato com cosméticos aos três anos, aprendeu técnicas por tutoriais e pediu um curso profissionalizante aos 12 para buscar a independência financeira. Apesar das críticas iniciais e da desconfiança de clientes e conhecidos devido à sua idade, Esther persistiu, preencheu sua agenda semanal e construiu uma rede de apoio fundamental. No esporte, o sonho de Joaquim Fernandes Cascaes, de 7 anos, encontra paralelos na vivência de Miguel, meia do Hercílio Luz. Cercado pelo esporte desde a infância devido à influência do pai e dos irmãos, o atleta destaca que a rotina profissional exige muito mais do que os 90 minutos de partida exibidos na televisão, exigindo humildade, resiliência e dedicação diária. Mudanças de rota também marcam a trajetória artística. Amira Awall Issah, de 9 anos, deseja ser atriz, enquanto Giselle Paes, atriz, contadora de histórias e produtora cultural do grupo Encantados Contadores de Histórias, de Tubarão, iniciou sua vida profissional desejando ser advogada. Mais tarde, cursou Ciências Biológicas e descobriu no teatro e na educação ambiental uma ferramenta de comunicação mais eficaz, migrando definitivamente para a cultura após novas capacitações e pós-graduações. As vivências de Alex, Alice, Matheus, Esther, Miguel e Giselle demonstram que não existe um roteiro único para o amadurecimento profissional. Os sonhos podem se concretizar exatamente como o planejado, ganhar novos significados ao longo dos anos ou exigir caminhos alternativos repletos de aprendizado. Para Zainabu, Benjamin, Gabriele, Paola, Joaquim e Amira, a infância permanece como o período ideal para experimentar e compreender o mundo sem pressões decisivas. A principal lição deixada pelas trajetórias relatadas é que as aspirações precisam de espaço para existir e de tempo para amadurecer. Oferecer suporte, educação e liberdade para que as crianças descubram quem desejam ser garante que o crescimento não signifique o esquecimento das origens, permitindo que a curiosidade e a coragem continuem presentes por toda a vida adulta.
Fonte: Sul in Foco







