Educação para todos: cursos populares impulsionam mulheres maduras na retomada de estudos rumo ao Enem Iniciativas voltadas para a inclusão educacional no Rio de Janeiro oferecem suporte pedagógico, psicológico e social para que alunas que adiaram o sonho da faculdade possam finalmente ingressar no ensino superior. Escolher uma profissão, estudar, se formar e perseguir a carreira desejada é um percurso que muitas vezes acaba adiado devido à falta de apoio e à necessidade de cuidar da família e dos filhos. Para reverter esse cenário e garantir novas oportunidades no mercado de trabalho, os cursinhos populares têm desempenhado um papel fundamental na preparação de mulheres maduras para o Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, oferecendo não apenas conteúdo acadêmico, mas também acolhimento e suporte socioemocional. No campus da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, localizado na zona norte da capital fluminense, o cursinho pré-vestibular social do Sindicato dos Servidores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, o Sintuperj, tornou-se o ponto de partida para dezenas de alunas que decidiram priorizar os próprios sonhos após décadas dedicadas ao trabalho e aos cuidados com os familiares. O projeto, criado originalmente em 1998 por um grupo de servidores em busca de crescimento profissional, abriu as portas para a comunidade externa e já acumula a marca de mais de 2 mil alunos aprovados em universidades públicas federais e na própria Uerj. Entre as estudantes que encontraram no cursinho popular o incentivo necessário está Zélia José dos Santos, de 72 anos. Dona de casa e mãe dedicada ao longo da vida, ela viu na oportunidade a chance de cuidar de si mesma e realizar o desejo antigo de cursar uma faculdade de serviço social. Persistente, Zélia já prestou o exame em anos anteriores e, para a edição de 2026, buscou o reforço pedagógico oferecido pelo Sintuperj. Segundo ela, a preparação trouxe mais confiança para enfrentar os desafios das provas do primeiro dia, que ocorrem neste domingo e exigem respostas a 90 questões objetivas de linguagens e ciências humanas, além da elaboração da tradicional redação. O perfil de Zélia reflete uma realidade expressiva dentro da sala de aula do cursinho. De acordo com Carlos Eduardo Silva de Lourdes, responsável pelo setor administrativo do projeto, as mulheres mais velhas representam entre 20% e 30% do total de estudantes matriculados. Para viabilizar a permanência desse público, a iniciativa cobra mensalidades acessíveis de R$ 162 para o público geral, concede 10% de desconto para servidores da Uerj e garante bolsas de estudos integrais para alunos em situação de vulnerabilidade social. A estrutura de apoio vai muito além da sala de aula tradicional. A coordenadora pedagógica do projeto, Raíssa Tabajara, destaca que o atendimento aos estudantes que estão há muito tempo longe dos bancos escolares exige uma rede de suporte ampla, que inclui atendimento pedagógico, psicossocial e até mesmo aulas voltadas para o autocuidado. O projeto também arrecada e distribui cestas básicas para os alunos e voluntários durante os aulões mensais, combatendo a insegurança alimentar que frequentemente afeta a rotina de quem tenta retomar os estudos na vida adulta. Essa rede de apoio é essencial para histórias como a de Paula Cristina dos Santos, técnica de enfermagem de 55 anos. Mãe na adolescência, Paula teve que interromper a trajetória acadêmica para se dedicar integralmente à família e ao sustento da casa. Embora já tenha obtido nota suficiente para cursar fisioterapia em tentativas anteriores, ela mantém firme o propósito de seguir na área da saúde e conquistar uma vaga no disputado curso de medicina. A jornada, segundo ela, é marcada por obstáculos significativos, intensificados pela idade e por limitações impostas pela fibromialgia, mas a convicção de que nunca é tarde para sonhar permanece inabalada. Enquanto o primeiro dia de provas se aproxima, a equipe de professores intensifica as orientações práticas para a prova de redação. A professora Érika Rodrigues enfatiza que a coerência deve ser o pilar principal da argumentação textual, recomendando o hábito da leitura e a construção de um repertório sociocultural consistente que precisa estar diretamente vinculado aos argumentos apresentados pelos candidatos. Ao longo do ano letivo no campus Maracanã, a docente trabalhou diversos eixos temáticos essenciais, abrangendo áreas como tecnologia, cidadania, meio ambiente, além de aspectos sociais e políticos. Para a reta final, a tecnologia surge como uma das principais apostas temáticas devido ao contexto atual de alerta global, exigindo dos candidatos não apenas a interpretação correta de textos, mas também a capacidade de inferir informações e identificar conteúdos falsos. A professora ressalta que reconhecer a desinformação tornou-se um dos pilares fundamentais da interpretação textual exigida nos exames contemporâneos, preparando os estudantes não apenas para a prova do Enem, mas para uma participação mais consciente e crítica na sociedade.
Fonte: Últimas notícias agência Brasil







