Temporada de baleias-jubarte no Brasil termina com queda drástica no número de filhotes Dados do Instituto Baleia Jubarte apontam que a proporção de recém-nascidos despencou para 3,35% em 2024, patamar muito abaixo da média histórica, acendendo o alerta para reflexos do aquecimento global. A temporada reprodutiva das baleias-jubarte na costa brasileira chegou ao fim com um cenário atípico e preocupante para pesquisadores: o registro de um volume expressivo a menos de filhotes nas águas do arquipélago de Abrolhos, no sul da Bahia, considerado a principal maternidade da espécie no Atlântico Sul. O fenômeno, que reduziu o tempo de permanência dos animais no país, é atribuído principalmente aos impactos do aquecimento global sobre a cadeia alimentar na Antártida. Segundo levantamento do Instituto Baleia Jubarte, a proporção de filhotes avistados dentro da população de baleias chegou a apenas 3,35% até o mês de setembro. O índice fica muito abaixo da média histórica de 9,98%, monitorada desde 2014 pela instituição. Para se ter uma ideia da oscilação, a taxa bruta de natalidade havia sido de 10,7% na temporada passada, enquanto o ano de 2024 registrou um recorde expressivo de 16,69% de filhotes. Milton Marcondes, diretor de pesquisas do Instituto Baleia Jubarte, explica que as mudanças climáticas estão alterando a disponibilidade de krill nas áreas de alimentação antárticas. Os pequenos crustáceos marinhos servem como alimento quase exclusivo para as jubartes, que precisam acumular uma grande reserva de gordura antes de iniciar a longa migração rumo ao Brasil. Como as baleias não se alimentam durante o trajeto de quase 4 mil quilômetros, fêmeas gestantes ou em fase de amamentação sofrem diretamente com a escassez alimentar. De acordo com o pesquisador, animais que não se alimentam adequadamente ao longo do ano perdem fertilidade ao chegar para o acasalamento, além de elevarem o risco de perda gestacional. O monitoramento que embasa essas estatísticas é realizado diariamente por pesquisadores a bordo de uma barcaça de transporte de celulose entre Belmonte, na Bahia, e Barra do Riacho, no Espírito Santo, garantindo uma amostragem confiável por ocorrer sempre no mesmo período e trajeto anuais. A baixa natalidade também foi confirmada por 11 cruzeiros científicos realizados no arquipélago de Abrolhos, que contabilizaram 431 indivíduos, dos quais apenas 42 eram filhotes. Uma contagem abrangente por sobrevoo, realizada entre os litorais de São Paulo e do Rio Grande do Norte, também está em andamento para atualizar a população total de jubartes no país, cujo último recorde havia atingido 34,5 mil animais em 2022. O novo levantamento deve refletir a redução de indivíduos e filhotes nesta temporada. Conforme ressalta a direção do instituto, flutuações populacionais são esperadas, mas a queda atual repete um padrão já observado em outras regiões do planeta. O fenômeno de baixa reprodução não ocorreu apenas no Brasil, tendo sido registrado também entre as jubartes do Pacífico que frequentam a costa do Equador e nas populações das costas oeste e leste da Austrália. A baixa taxa de natalidade provocou ainda uma mudança no comportamento migratório e o encerramento antecipado da temporada. As jubartes costumam chegar ao país em junho, com pico entre julho e outubro, e partida geral até novembro. No entanto, os animais adultos que vieram para o acasalamento retornaram mais cedo, enquanto a permanência prolongada no litoral brasileiro costuma ser ditada pelos filhotes, que precisam ganhar massa muscular e uma camada de gordura protetora contra o frio das águas antárticas antes da viagem de retorno. O panorama atípico também se refletiu nos registros de encalhes na costa brasileira, que somaram 59 casos até o momento, número inferior aos 78 registrados no ano anterior. Historicamente, os filhotes formam o grupo mais vulnerável a encalhes devido à dependência materna e à imaturidade imunológica. Com poucos recém-nascidos este ano, a categoria que passou a se destacar nas ocorrências foi a de animais juvenis, que possuem menor capacidade de estocar gordura e menos experiência na busca por alimento. Outra alteração geográfica chamou a atenção dos especialistas. Como as jubartes juvenis ainda não estão aptas para o acasalamento, elas costumam interromper a viagem migratória mais ao sul. Por essa razão, os estados que lideraram os registros de encalhes nesta temporada foram São Paulo e Santa Catarina, invertendo a distribuição padrão que tradicionalmente concentra os casos na Bahia e no Espírito Santo. Pesquisas anteriores do instituto já conseguiram correlacionar a baixa disponibilidade de krill na Antártida com picos históricos de encalhes no Brasil, registrados nos anos de 2010, 2017 e 2018. Em 2021, o país contabilizou um recorde de 230 animais mortos na costa, período que também coincidiu com baixa natalidade, embora restrições sanitárias da pandemia tenham impedido coletas biológicas para mensurar o volume exato de krill naquele ano. Apesar de o volume atual de encalhes estar relativamente baixo, a comunidade científica mantém o sinal de alerta ligado para o futuro próximo. Segundo o diretor de pesquisas, se o problema de escassez de krill na Antártida persistir, a tendência é que os reflexos negativos se tornem cumulativos, resultando em uma mortalidade atípica de mamíferos marinhos na próxima temporada migratória.
Fonte: Últimas notícias agência Brasil







