Como o antissemitismo e o autoritarismo moldam a resistência nas universidades: o estopim da UFF na virada eleitoral Estudantes da Universidade Federal Fluminense deram início a uma onda de protestos pelo país após o primeiro turno de 2026, canalizando nas ruas a angústia com o avanço da extrema-direita e o risco à educação pública. “O abalo e o espanto precisam se transformar em movimento.” Com essa frase estampada em um cartaz, estudantes da Universidade Federal Fluminense deram o pontapé inicial em uma onda de mobilizações que tomou as ruas de Niterói e se alastrou por diversas cidades brasileiras após o primeiro turno das eleições. Organizado pelo Centro Acadêmico Evaristo da Veiga e pela Associação Atlética Acadêmica Camillo Guerreiro, ambas do curso de direito, o protesto daquela chuvosa segunda-feira de outubro buscou canalizar a angústia dos jovens diante de um cenário eleitoral acirrado. A manifestação nasceu de articulações de última hora na noite anterior, logo após a divulgação dos resultados das urnas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O placar local apontava o senador Flávio Bolsonaro com 47% dos votos válidos, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula registrava 45%. A proximidade dos números e a perspectiva de vitória da oposição acenderam um alerta vermelho entre os universitários, que enxergavam na plataforma do candidato do PL uma ameaça concreta à sobrevivência das instituições federais de ensino. Entre os pontos do plano de governo do oposicionista que geraram maior rejeição estava a proposta de transferir as universidades do Ministério da Educação para a pasta de Ciência e Tecnologia, um setor tradicionalmente desprovido do mesmo volume de recursos. Para lideranças estudantis como a diretora do centro acadêmico Valentina Cruz, a medida pavimentaria o caminho para cortes severos em infraestrutura e em programas de assistência estudantil, repetindo um roteiro de desinvestimento já vivenciado durante o governo de Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022. A memória recente do período em que a UFF figurou entre as primeiras federais a sofrer contingenciamentos orçamentários sob a justificativa de promover balbúrdia alimentou o sentimento de urgência. Simão Gabriel Adorno, membro da atlética do curso, relembrou os impactos daquela gestão, marcada por bloqueios de até 30% nas verbas e por declarações públicas de autoridades que tratavam os discentes de forma pejorativa. Para ele e seus colegas, o pleito representava o risco iminente de perder o patrimônio acadêmico e a estabilidade da pesquisa pública. Além da pauta educacional, a mobilização incorporou o rechaço a propostas de anistia para figuras ligadas aos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. A promessa de campanha de Flávio Bolsonaro de que seu pai, preso por liderar a tentativa de golpe de Estado, seria libertado para subir a rampa presidencial mobilizou símbolos históricos da resistência. Os estudantes desfilaram com a bandeira do Direito Antifascista, estandarte criado em 2018, e invocaram a memória de figuras perseguidas pela ditadura militar, como o ex-aluno da instituição Fernando Santa Cruz, desaparecido em 1974. O que começou como um ato interno, idealizado para reunir alunos, professores e entidades de classe como a Ordem dos Advogados do Brasil, rapidamente extrapolou os limites institucionais. Conforme relataram os diretores do movimento, o chamamento inicial atraiu centenas de pessoas e ganhou a adesão de outros cursos da UFF, como o Centro Acadêmico de Relações Internacionais Sérgio Vieira de Melo. Alunos de diferentes graduações decidiram se somar à caminhada que partiu do pátio, passou pela reitoria no bairro de Icaraí e retornou à Faculdade de Direito, no Ingá. A adesão popular surpreendeu os organizadores à medida que moradores deixavam os prédios residenciais e transeuntes se integravam à passeata sob a chuva. Relatos de momentos de emoção coletiva, como o de uma aposentada que caminhava de bengala para alertar que o futuro do país não poderia ser entregue à extrema-direita, contrastaram com episódios de hostilidade. Estudantes relataram que ovos foram arremessados de sacadas de edifícios contra o grupo pacífico, evidenciando o clima de polarização e os riscos à segurança que marcaram o processo eleitoral. A dinâmica observada em Niterói serviu de catalisador para protestos semelhantes em outras capitais ao longo daquela semana. Na quarta-feira, estudantes ocuparam o centro do Rio de Janeiro em uma nova demonstração pública em defesa da democracia e da educação. Manifestações de proporções expressivas também ocorreram na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, integrando uma campanha popular voltada a conquistar votos nulos e persuadir eleitores abstencionistas na reta final do pleito. Para a historiadora Carolina Barreto, pesquisadora de movimentos sociais e autora de obras sobre a trajetória do protesto estudantil no Brasil, a reação observada na UFF alinha-se a uma longa tradição de protagonismo juvenil na política nacional. Desde a atuação da União Nacional dos Estudantes contra o nazifascismo e em defesa da Petrobras nas décadas anteriores à ditadura militar, passando pelas jornadas pelo impeachment de Fernando Collor nos anos 1990 e pelos atos de junho de 2013, os jovens têm ocupado o papel de motores de transformação e resistência institucional. O peso simbólico daquela mobilização também foi destacado por figuras públicas ligadas à história recente do país, como o advogado Felipe Santa Cruz. Com doutorado na UFF e passagens pela presidência da OAB, Santa Cruz avaliou que a resposta espontânea dos estudantes colocou a nova geração na vanguarda da defesa democrática, ecoando o orgulho de ver os jovens tomarem a história em suas próprias mãos diante das ameaças institucionais enfrentadas pelo Brasil.
Fonte: Últimas notícias agência Brasil







