Preço do limão dispara até 374% nos mercados e pesa no bolso do consumidor mesmo na entressafra Excesso de chuvas, quebras na florada e forte competição com o mercado externo explicam a disparada histórica nos preços do limão tahiti nas principais centrais de abastecimento do país. O consumidor brasileiro que tem tentado incluir o limão nas compras dos últimos meses tem se deparado com um cenário atípico e de forte pesagem no orçamento doméstico. Mesmo com o avanço do período de entressafra, a fruta registra patamares de preços consideravelmente acima da média histórica. O salto nos valores é fruto de uma forte retração na oferta nacional, combinada com quebras severas na produção que deixaram os produtores com margens reduzidas para garantir a colheita e suprir a demanda interna e externa. De acordo com levantamentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e análises do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), o mercado do limão é historicamente marcado por uma volatilidade muito superior à de outras culturas agrícolas. No entanto, o cenário recente superou as expectativas do setor produtivo. Condições climáticas adversas, com um regime atípico de chuvas e dias nublados no começo do ano, comprometeram tanto a quantidade quanto a qualidade comercializável dos frutos e afetaram diretamente a formação das safras subsequentes. No cinturão cítrico paulista, polo responsável por cerca de 80% de toda a produção nacional da fruta, a alta nos valores repassados ao produtor foi drástica. Dados da Conab indicam que a média do preço pago pela caixa de 27,2 kg do limão tahiti — variedade que responde por 88% da produção da região — saltou de R$ 32,10 em junho para R$ 55,60 em julho, atingindo o pico de R$ 104,78 em agosto. O acumulado no período representou uma alta expressiva de 226,4%. Ao comparar o preço da mesma caixa em agosto deste ano com o mesmo mês do ano anterior, a diferença apontou um custo 71% maior para o produtor corrente. O impacto dessa escassez na produção refletiu rapidamente nos grandes centros de distribuição e nos mercados atacadistas do país. Na Ceagesp, localizada na capital paulista e considerada o maior entreposto do Brasil, o preço do quilo do limão disparou 374%. A cotação partiu de R$ 1,82 no início da entressafra, em maio, e alcançou o pico de R$ 8,62 nos últimos dias de setembro. Dinâmica semelhante ocorreu na CeasaMinas, na região metropolitana de Belo Horizonte, onde a variação atingiu 240%, com o quilo saltando de R$ 2,50 para R$ 8,50. O ciclo tradicional da cultura do limão aponta que o pico da safra ocorre habitualmente nos meses de janeiro e fevereiro. Nos meses de março e abril, a produção costuma apresentar queda, mantendo-se em patamares estáveis até a entrada oficial da entressafra, no final de maio, período que se estende até meados de setembro, quando a nova safra passa a ser colhida. Contudo, o desequilíbrio recente ocorreu justamente pela queda acentuada na oferta logo no início do ciclo de entressafra, comparado aos anos anteriores, em razão dos impactos do clima sobre os pomares. Segundo os técnicos da Conab, a umidade elevada registrada no primeiro trimestre e o aumento expressivo de dias nublados resultaram em frutas de coloração mais clara e criaram barreiras logísticas para a realização da colheita. Além disso, a principal florada responsável por abastecer o mercado interno durante o segundo semestre, ocorrida em julho, foi severamente prejudicada por precipitações acima da média nas principais regiões produtoras, concentradas principalmente nos municípios paulistas de Matão e Bebedouro, áreas que respondem por cerca de 68% da zona produtora do cinturão. Outras regiões de menor expressão, como Limeira, Votuporanga e São José do Rio Preto, também sofreram com os impactos climáticos. A situação de escassez foi agravada pelo fato de que o excesso de chuvas também prejudicou o pegamento dos frutos de floradas anteriores, elemento que deveria atenuar a falta de produtos nos meses de setembro e outubro. A esse cenário de quebra de safra somaram-se a forte competição com o mercado internacional, visto que o Brasil exporta cerca de 11% de sua produção total, principalmente para países da Europa, e o aquecimento da demanda interna impulsionado pelas altas temperaturas registradas nos meses de agosto e setembro. Apesar do quadro restritivo, especialistas apontam que a normalização gradual dos preços ao consumidor final deve ocorrer até o final do ano, com a entrada firme da nova safra no mercado. Nas últimas semanas, as cotações praticadas na Ceagesp já demonstraram sinais de arrefecimento, embora analistas façam ressalvas sobre a sustentabilidade dessa tendência a curto prazo. Para o futuro próximo, pesquisadores alertam que os efeitos climáticos podem continuar influenciando o setor. Segundo Renato Garcia Ribeiro, pesquisador do Cepea/Esalq, o impacto maior recaiu sobre o volume geral de produção, e as consequências das atuais anomalias climáticas devem se estender para o próximo ciclo produtivo. No entanto, avaliações técnicas da Conab ponderam que, embora fenômenos climáticos globais como o El Niño tenham contribuído para a configuração do cenário adverso no decorrer do ano, a intensidade do fenômeno ainda era baixa nos períodos mais críticos de florada, não podendo ser apontada como a causa isolada para as oscilações extremas observadas no mercado do limão.
Fonte: Últimas notícias agência Brasil







