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Eliana Alves Cruz questiona ausência de autoras negras no Jabuti

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Eliana Alves Cruz questiona ausência de autoras negras no Jabuti

Escritora Eliana Alves Cruz aponta lacuna histórica na literatura após vencer o Prêmio Jabuti Primeira mulher negra a conquistar a premiação na categoria Romance com Meridiana, a autora questiona a naturalização da ausência de escritoras negras no prêmio ao longo de décadas e defende a investigação da vida negra por meio da ficção A trajetória da escritora, jornalista e roteirista Eliana Alves Cruz ganhou um novo marco histórico com a conquista do Prêmio Jabuti na categoria Romance com a obra Meridiana, que narra a busca de ascensão social de uma família negra na favela. Ao refletir sobre a honraria, a autora destacou que o fato de ter sido a primeira mulher negra a vencer na categoria principal de romances deveria causar estranheza não por sua condição pessoal, mas pelo fato de isso ter ocorrido somente na 68ª edição da premiação. Para a escritora, nomes fundamentais da literatura nacional como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves já poderiam ter recebido o reconhecimento ao longo dos anos, evidenciando o retrato de uma sociedade que historicamente prefere não encarar a própria exclusão. Com uma carreira consolidada que transita entre a investigação jornalística e a literatura, Eliana reforça que a premiação funciona como um meio de dar visibilidade e viabilidade financeira ao trabalho, mas lamenta que a sociedade brasileira tenha naturalizado a ausência de autores negros nos grandes palcos literários. A autora, que também venceu o Jabuti em 2022 na categoria Contos com A vestida, aponta que o cenário reflete um esforço recente de mudança e inclusão por parte da premiação, mas ressalta que a produção literária negra e periférica ainda enfrenta barreiras estruturais em um mercado que frequentemente rotula obras plurais sob pechas reducionistas, como o identitarismo, inviabilizando o alcance legítimo de narrativas fundamentais para a compreensão da história brasileira. O interesse pela escrita acompanhou Eliana desde a infância, alimentado pelas memórias e narrativas compartilhadas pelo pai e pelas avós dentro de casa. No entanto, a exigente rotina no jornalismo diário, especialmente durante os anos em que atuou como assessora de comunicação na Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos com jornadas exaustivas de trabalho, postergou o sonho de se dedicar integralmente à literatura. Foi após enfrentar um quadro de esgotamento profissional associado ao burnout entre 2009 e 2010 que ela decidiu canalizar suas pesquisas para a escrita de seu primeiro romance de sucesso, Água de Barrela, obra que resgata a saga de sua família descendente de africanos escravizados no Recôncavo Baiano. O processo de pesquisa para a obra durou cerca de cinco anos e meio, envolvendo consultas a arquivos públicos em Salvador, Cachoeira e no Rio de Janeiro, além do resgate de cartas, fotografias e registros orais fundamentais, como os relatos de sua tia-avó centenária. Sem grandes expectativas de publicação comercial pelas editoras tradicionais da época, a autora inscreveu o livro na primeira edição do Prêmio Literário Oliveira Silveira, promovido pela Fundação Cultural Palmares em 2015, conquistando o primeiro lugar. A partir daquela vitória, a literatura passou a ocupar o centro de sua trajetória profissional, impulsionando novos projetos investigativos. A interseção entre a apuração jornalística e a ficção literária consolidou-se como marca registrada de sua produção. A prática de duvidar dos fatos oficiais e escavar os silêncios da história oficial levou a autora a desenvolver o projeto literário dedicado a investigar a vida negra no Brasil em diferentes tempos, espaços e contextos socioeconômicos. Essa imersão resultou em obras como O crime do Cais do Valongo, romance lançado inicialmente pela editora Malê e reeditado pela Record, que deu origem à coleção Crimes Coloniais. A pesquisa aprofundada sobre a chegada de africanos escravizados ao Rio de Janeiro abriu caminhos para uma investigação contínua sobre as marcas da escravidão e do racismo estrutural na formação da sociedade brasileira. Além do reconhecimento pelo Prêmio Jabuti, a produção literária de Eliana Alves Cruz tem acumulado importantes honrarias no cenário cultural do país. Com Meridiana, a autora também foi laureada com o Prêmio Guimarães Rosa da Academia Brasileira de Letras na categoria Ficção, e tem posse marcada como membro da Academia Carioca de Letras. Fora dos livros, a escritora também deixou sua marca na televisão aberta ao apresentar a quarta temporada do programa Trilha de Letras na TV Brasil, única atração dedicada exclusivamente à literatura na grade da TV aberta, cuja possível retomada é aguardada com expectativa pelo público e pela classe artística. Diante dos desafios enfrentados por novos escritores negros no país, que frequentemente acumulam jornadas exaustivas de trabalho e enfrentam barreiras estruturais na base da sociedade, a autora deixa um conselho fundamentado em sua própria vivência. Para Eliana, o principal obstáculo inicial reside nas próprias resistências e na autocrítica paralisante, sendo fundamental que os novos talentos escrevam em cada tempo livre disponível, cultivem o hábito da leitura para refinar a dicção e busquem a própria voz narrativa para registrar suas histórias sem medo de errar ou de ocupar espaços historicamente negados.

Fonte: Últimas notícias agência Brasil

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