Eleições 2026: Lula aposta no Sul Global e Flávio Bolsonaro mira alinhamento com EUA e Israel Planos de governo opostos para a política externa colocam em evidência visões divergentes sobre soberania, acordos comerciais, defesa nacional e a exploração de terras raras. A política externa brasileira ganhou protagonismo central na corrida eleitoral deste ano, com os candidatos à presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentando propostas diametralmente opostas para a projeção internacional do país. Enquanto o plano de governo do candidato petista destaca o fortalecimento das relações com o Sul Global e a defesa de uma atuação universalista, a chapa do candidato do PL aposta em uma aproximação estratégica com os Estados Unidos, Israel e Argentina, além da atração de capital estrangeiro e convergência com padrões globais. O documento apresentado por Lula, que reserva quase seis páginas para o tema da diplomacia, aponta que o mundo vive conflitos sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial, marcados por ataques ao direito internacional e tentativas de imposição de uma ordem mundial predatória. O texto faz uma firme oposição a qualquer iniciativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir o país a uma posição de dependência geopolítica, rejeitando alinhamentos automáticos. Em contrapartida, o programa de Flávio Bolsonaro, que dedica cerca de três páginas ao assunto, argumenta que a soberania se exerce na prática e não por meio de bravatas, criticando a condução da política externa nos últimos anos e afirmando que o Itamaraty priorizou a ideologia em detrimento do interesse nacional. As divergências refletem-se diretamente na postura adotada em relação a potências globais e a crises internacionais recentes. O governo de Lula tem adotado uma condenação explícita a ataques militares contra o Irã e à intervenção na Venezuela, combinando as críticas com apelos por diálogo diplomático e respeito ao direito internacional. Por outro lado, o plano e as declarações de Flávio Bolsonaro defendem as ações bélicas do governo de Donald Trump e criticam a política dos Brics de estimular o comércio entre nações sem a dependência do dólar. A chapa do PL também promete reverter o que classifica como desgaste nas relações com parceiros tradicionais como Estados Unidos, Israel e Argentina, que teriam sido levadas ao limite do rompimento. No campo da defesa nacional, ambos os candidatos estabelecem uma correlação direta entre a capacidade militar e a projeção soberana do país no cenário internacional. O programa de Lula destaca a execução de R$ 20,4 bilhões em projetos estratégicos desde 2023 por meio do Novo PAC, mencionando a entrega de sete caças Gripen-F39 — com a produção da primeira aeronave em solo brasileiro —, a aquisição de três cargueiros KC-390, a construção de quatro fragatas e a fabricação de 226 viaturas blindadas. Já o projeto de Flávio Bolsonaro propõe incentivar tecnologias militares com foco em inovação voltada para drones e inteligência artificial, argumentando que os investimentos nas Forças Armadas devem ser compatíveis com a participação do Brasil em blocos e grupos globais. A estratégia comercial e a diversificação de parcerias também ocupam espaço central nos debates. O plano de Lula prevê uma política externa universalista para abrir novos mercados e enfrentar agressões comerciais, em um cenário no qual o Brasil tem sido alvo da política de tarifas impuestas pelo governo de Donald Trump. O documento petista enfatiza o aprofundamento da cooperação geopolítica com o Brics, o G20 e os países do Sul Global, além de um foco especial na aproximação com o continente africano. Em contraponto, Flávio Bolsonaro afirma que a diplomacia deve ser guiada pelo interesse do produtor e do trabalhador brasileiro, sem preconceitos ideológicos, prometendo negociar tanto com a China quanto com a União Europea e os Estados Unidos. A questão dos minerais críticos e das terras raras ilustra a disputa tecnológica e comercial entre as propostas. O plano de Lula prevê o desenvolvimento de uma política específica para organizar cadeias produtivas e evitar a simples exportação de matérias-primas, promovendo o mapeamento e a agregação de valor regional. Em contraste, Flávio Bolsonaro propõe atrair capital e tecnologia estrangeira por meio de parcerias internacionais com os países interessados em cooperar com o Brasil. O candidato do PL tem defendido no exterior que o Brasil detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, com cerca de 21 milhões de toneladas, e pode funcionar como solução para os Estados Unidos reduzirem a dependência em relação à China nesse setor estratégico. A integração regional e o impacto das relações diplomáticas na economia interna também geram atritos entre os candidatos. O programa de Lula aponta a integração sul-americana e o fortalecimento do Mercosul como o primeiro círculo de projeção estratégica do país, criticando o isolamento geopolítico que o Brasil teria sofrido em mandatos anteriores. O cenário econômico recente foi marcado pela imposição de tarifas aos produtos brasileiros pelos Estados Unidos em meados de 2025, medida criticada pelo governo atual, que acusa aliados da oposição de articularem sanções externas contra o país. Em contrapartida, Flávio Bolsonaro responsabiliza uma suposta agenda anti-EUA da gestão petista pelas tarifas e afirma que buscará soluções diplomáticas eficazes contra sanções internacionais, enquanto seu plano inclui ainda o objetivo formal de integrar o Brasil à Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico para melhorar a governança e alinhar normas nacionais aos padrões globais.
Fonte: Últimas notícias agência Brasil







