Romarias no Sul de SC mobilizam fiéis em caminhadas de devoção a Nossa Senhora Aparecida Jornada de 34 quilômetros entre Tubarão e Treze de Maio reflete tradição que conecta grutas históricas, fortalece laços comunitários e atravessa gerações na região. Ainda na escuridão da madrugada deste domingo (11), pontualmente às 4h, dezenas de peregrinos partiram da Igreja São Francisco de Assis, no bairro Monte Castelo, em Tubarão, com destino à Colina de Nossa Senhora Aparecida, em Treze de Maio. A jornada de cerca de 34 quilômetros integrou a quarta edição da Caminhada do Movimento de Irmãos, evidenciando como a fé mobiliza multidões pelas rodovias e estradas rurais do Sul catarinense em torno de preces, promessas e agradecimentos. O trajeto exige resistência física acentuada, mas a quilometragem percorrida representa apenas uma fração do significado para quem participa. Para a maioria dos devotos, cada passo dado no asfalto ou na terra batida funciona como uma oração silenciosa, onde intenções pessoais muitas vezes difíceis de verbalizar encontram espaço na solidariedade e no esforço compartilhado do grupo. De acordo com o padre Edison Müller, a devoção mariana ocupa uma posição central na vida de fiéis que atravessam períodos de enfermidade, perdas e provações. O sacerdote ressalta que as promessas não devem ser encaradas como acordos comerciais ou negociações com o sagrado, mas sim como testemunhos de confiança irrestrita e busca por amparo espiritual diante das incertezas da vida. O sacerdote destaca que as peregrinações oferecem aos participantes uma oportunidade ímpar para externar gratidão por graças concedidas, restabelecer a esperança e consolidar a própria espiritualidade. Segundo ele, a figura de Nossa Senhora Aparecida consolidou-se como um referencial de consolo e acolhimento para o povo brasileiro, permitindo que a superação das dificuldades seja compartilhada de forma coletiva ao longo dos caminhos. Essa manifestação de fé não se restringe a uma rota única e se espalha por dezenas de santuários e capelas menores integradas à rotina das cidades vizinhas. Em Armazém, a Diocese de Tubarão mantém referências como a Gruta Nossa Senhora Aparecida, localizada na comunidade de Vila Nova, além das grutas dedicadas a Nossa Senhora das Brotas e Nossa Senhora do Rosário, que preservam a identidade religiosa em núcleos rurais. No município de Orleans, a Gruta Nossa Senhora Aparecida, situada no bairro Corridas e às margens da SC-108, figura como ponto consolidado de visitação religiosa. O endereço compõe o inventário oficial de atrativos turísticos da Associação dos Municípios da Região Carbonífera (AMREC) e permanece constantemente acessível para viajantes e moradores locais que buscam recolhimento espiritual. A diversidade das invocações marianas também se destaca em Urussanga, onde a Gruta Nossa Senhora de Fátima se ergue em pedras na região central, próxima à Igreja Matriz. O espaço, cercado por vegetação e amplamente divulgado pelo setor de turismo da cidade, atua como um refúgio de oração acessível no cotidiano dos moradores da região carbonífera. Já em Criciúma, a Gruta Nossa Senhora de Lourdes agrega valor histórico e patrimonial ao cenário de devoção no Sul do estado. Edificada em pedras rústicas no ano de 1946, no bairro Lote Seis, a estrutura abriga vertente de água natural, vegetação nativa e imagens de Nossa Senhora de Lourdes e de Santa Edwiges. Tombado como patrimônio histórico municipal em 2008, o local passou por um processo de restauração entregue à comunidade em abril de 2026. A devoção que impulsiona esses trajetos remonta ao ano de 1717, quando pescadores retiraram as partes da imagem de Nossa Senhora da Conceição das águas do Rio Paraíba do Sul, em São Paulo, antes de obterem uma pescaria farta. O culto expandiu-se pelas décadas seguintes até a proclamação da santa como padroeira oficial do Brasil, formalizada em 1930 pelo papa Pio XI e celebrada anualmente em 12 de outubro. No território catarinense, a Colina de Treze de Maio tornou-se o maior polo dessa celebração desde a inauguração de seu monumento, em 1999. Todos os anos, o complexo religioso recebe caravanas de fiéis de diversas cidades, dependendo de esquemas de apoio logístico para acolher aqueles que enfrentam longas horas de caminhada sob sol ou chuva. Conforme aponta o padre Edison Müller, essa tradição continua a se renovar entre as gerações mais novas, que encontram nas redes sociais ferramentas para articular grupos, planejar encontros e compartilhar orações. Independentemente da distância percorrida, seja em travessias de quilômetros ou em breves visitas a grutas de bairro, o ato de caminhar consolida-se no Sul catarinense como um dos mais profundos ritos de esperança e memória coletiva.
Fonte: Sul in Foco







