Entre o renascimento e a batalha diária: mulheres do Sul de SC relatam os impactos do câncer de mama Enquanto empresária de Içara celebra a remissão e reconstrói a carreira, dona de casa de Cocal do Sul enfrenta novo ciclo de tumores e reforça alerta sobre o diagnóstico precoce. O diagnóstico de câncer impõe rupturas imediatas, transformando rotinas e exigindo forças que muitas pacientes desconheciam possuir. No Sul de Santa Catarina, as trajetórias de Andreza Amorim, moradora de Içara, e Kátia Cristina Correia Gama, de Cocal do Sul, ilustram as diferentes fases e complexidades dessa travessia, marcada por sofrimento físico, abalos emocionais e a busca constante pela vida. Durante o período mais crítico do tratamento, Andreza vivenciou episódios de dor extrema decorrentes de complicações severas. A empresária desenvolveu neuropatia, anemia e quedas abruptas nas taxas de plaquetas e na imunidade, quadro que exigiu transfusões de sangue e internações hospitalares contínuas. Diante da debilidade, tarefas básicas tornaram-se inviáveis. Ela relata que houve dias em que pediu a Deus para não resistir, impossibilitada de comer, tomar banho ou permanecer em pé. Além do desgaste biológico, a perda dos cabelos afetou profundamente sua identidade. A reação social nas ruas, frequentemente marcada por compaixão evidente, ampliava o desconforto psicológico em um período já fragilizado. O isolamento involuntário também reconfigurou o círculo de amizades de Andreza. Enquanto alguns conhecidos se afastaram, laços inesperados trouxeram suporte por meio de mensagens, refeições e visitas. O respaldo familiar, centralizado no apoio da irmã durante as etapas de quimioterapia, cirurgia e radioterapia, somado à presença constante da filha, foi decisivo para a sustentação emocional. Atualmente em remissão, Andreza realiza exames preventivos a cada seis meses. Embora carregue a vitória da última sessão de quimioterapia na memória, o receio de uma recidiva permanece a cada desconforto físico. A experiência, no entanto, motivou uma profunda transformação profissional: a ex-professora deixou a antiga atividade para inaugurar, em 2024, o Colégio Vencer, em Içara. Em Cocal do Sul, Kátia Cristina Correia Gama vivencia o outro lado dessa realidade, permanecendo em combate direto contra a enfermidade. Moradora do município há 25 anos, a dona de casa recebeu a notícia da doença em março de 2025, logo após celebrar a perda de 78 quilos conquistada por meio de uma cirurgia bariátrica e planejar uma nova fase pessoal. O choque inicial deu lugar a um longo histórico cirúrgico. Na primeira intervenção, os médicos retiraram 18 microtumores de sua mama direita. Quando o quadro parecia estabilizado, novos exames detectaram o câncer no lado esquerdo, culminando na extração de 15 tumores da axila, dois da região abdominal e um das costas. Os efeitos adversos dos medicamentos trouxeram feridas orais, náuseas recorrentes, desarranjos intestinais e severa fraqueza motora. Kátia descreve as idas aos consultórios médicos como momentos de extrema apreensão, comparando a incerteza quanto aos resultados a uma constante ameaça sobre sua rotina. A rede de apoio tem sido fundamental para sustentar sua recuperação. Além do marido e dos filhos, o acolhimento oferecido pela Associação Amigas do Peito transformou as voluntárias em uma extensão de sua própria família, amenizando o peso emocional de cada ciclo terapêutico. A paciente faz questão de alertar outras mulheres sobre os perigos de negligenciar sinais do corpo. Kátia conta que não sentia dores e que as primeiras alterações foram avaliadas inicialmente como leite empedrado. Quando buscou o centro especializado em oncologia, o tumor já se encontrava em fase avançada, o que aumentou a complexidade do tratamento. O cenário enfrentado pelas duas catarinenses reflete um desafio epidemiológico expressivo. De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), Santa Catarina deve contabilizar 4.460 novos diagnósticos de câncer de mama feminina em 2026. Em escala nacional, a projeção aponta para 78.610 ocorrências anuais entre 2026 e 2028. As histórias ganham relevância ampliada nas discussões do Outubro Rosa, evidenciando que os cuidados e a conscientização extrapolam as campanhas anuais. Para quem ainda lida com a toxicidade dos fármacos e as incertezas do prognóstico, a recomendação de quem vivencia o processo é respeitar os próprios limites, acolher o choro e encarar cada dia como uma nova oportunidade de superação.
Fonte: Sul in Foco







