Da lama ao voto: ex-alunos e analfabetos transformam antigo curral em símbolo de cidadania em Goiás História de escola municipal em Águas Lindas de Goiás ilustra a luta por educação e democracia na periferia do Distrito Federal, unindo gerações de trabalhadores em dia de eleição. Às 5h50 da manhã de um domingo decisivo para o país, o piauiense Pedro Pereira, de 56 anos, já ocupava o primeiro lugar na fila da Escola Municipal Domingos Simão de Oliveira, em Águas Lindas de Goiás (GO). Morador da cidade goiana e trabalhador como porteiro em Brasília, a 50 quilômetros de distância, ele enfrentou o frio da madrugada movido por uma urgência antiga: a esperança de que o voto nas urnas eletrônicas possa transformar sua realidade, inclusive pondo fim à extenuante escala de trabalho 6×1. Para Pedro, que interrompeu os estudos no 4º ano fundamental para ajudar a família na roça em Campo Maior (PI), cruzar os portões daquela escola é um ritual que mexe profundamente com suas emoções, ecoando o sacrifício de uma vida inteira dedicada ao trabalho braçal no Centro-Oeste. A carga simbólica do momento, contudo, vai muito além da rotina eleitoral. A própria unidade de ensino onde Pedro e centenas de eleitores votam carrega uma trajetória de superação que se confunde com a história da comunidade local. Na década de 1990, o terreno onde hoje funciona a escola abrigava um curral de vacas de uma fazenda da região. O improviso marcou os primeiros passos da instituição em 1992, quando a professora e psicopedagoga Maria do Socorro Pereira, hoje com 69 anos, conseguiu reunir 60 crianças, filhas de trabalhadores rurais, para iniciar as aulas em contêineres e áreas improvisadas. A própria educadora relata ter cavado cisterna para viabilizar o funcionamento do espaço que, atualmente, atende a 1.350 alunos. O desenvolvimento do município autônomo de Águas Lindas de Goiás, emancipado em 1995, caminhou lado a lado com a expansão da escola, que passou a oferecer o ensino fundamental e médio, transformando-se em um marco de resistência social e política. Do lado de fora das salas de votação, o sentimento de exclusão escolar misturava-se ao orgulho pela trajetória dos filhos. O agricultor Divino Evangelista dos Santos, de 53 anos, segundo da fila no mesmo local, também se considera analfabeto por ter estudado apenas até o 4º ano. Ele celebra o fato de nenhum dos 11 filhos ter abandonado os estudos. No mesmo grupo, o pedreiro Dorival Batista, de 62 anos, natural de Rio do Sono (TO) e morador de Águas Lindas desde 2002, compartilha o anseio por um descanso merecido após décadas de labuta na construção civil. A expectativa por um futuro melhor através da educação também mobiliza quem já frequentou os bancos escolares da instituição. A camareira Géssica Matos, de 33 anos, aguardava para votar carregando no colo o filho Oliver Darwin, de 9 meses. Moradora histórica do bairro e estudante de toda a sua vida básica na mesma escola, ela enfrenta madrugadas alternadas para cumprir sua escala no Hospital de Base, em Brasília. Para Géssica, retornar à unidade para exercer o direito ao voto é uma forma de alimentar sonhos e garantir que o filho cresça em um país democrático e com ensino de excelência. O sentimento de pertencimento é compartilhado pelo marido, o marceneiro Jeremias Azevedo, de 30 anos. Histórias de superação individual encontram eco nas trajetórias de profissionais formados graças às políticas públicas e à insistência dos educadores. O advogado Adenilson dos Santos Filho, de 36 anos, recorda que frequentava a escola desde os 7 anos, inicialmente atraído pela merenda escolar, mas impulsionado pelas professoras. Filho de caminhoneiro e de professora primária, ele concluiu o ensino superior por meio do Programa Universidade para Todos (Prouni), do governo federal, após não ter condições financeiras de pagar uma faculdade. Para ele, a escola erguida sobre o antigo curral permanece como referência fundamental na formação do senso de justiça da comunidade. A conexão geracional com o espaço escolar se renova na voz de jovens recém-formados e de profissionais que atuam na própria rede de ensino. O balconista Adriano Silva, de 20 anos, sentiu nostalgia ao retornar para votar, embalado pelas lembranças da quadra de esportes e focado agora no curso superior de gestão pública. Na mesma linha, Lídia da Conceição, de 31 anos, que estudou a vida inteira no local, hoje atua como monitora de alunos com neurodivergência e cursa pedagogia com o objetivo de lecionar na mesma escola. Para a atual diretora da unidade, Zélia Vaz, de 58 anos, o cotidiano das salas de aula reflete diretamente a maturidade política e social dos cidadãos que retornam às urnas. Ao longo de três décadas, a instituição acolheu famílias em diferentes graus de vulnerabilidade social, consolidando-se como um porto seguro comunitário. Ver ex-alunos retornando como adultos conscientes de seus direitos políticos, segundo a direção, corrobora o impacto transformador da educação pública na periferia brasileira.
Fonte: Últimas notícias agência Brasil







