Fêmea de elefante-marinho-do-sul dá à luz filhote no litoral de Jaguaruna e mobiliza especialistas em Santa Catarina Espécie raramente se reproduz na costa catarinense; equipes de monitoramento ambiental e bombeiros isolaram o local para proteger os animais durante as semanas de amamentação O litoral de Jaguaruna, no Sul catarinense, foi palco de um registro ecológico extraordinário. Uma fêmea de elefante-marinho-do-sul (Mirounga leonina) foi avistada na faixa de areia acompanhada de seu filhote recém-nascido. A cena incomum chamou a atenção de quem transitava pela praia e rapidamente desencadeou uma operação técnica para resguardar o bem-estar dos mamíferos. Logo nas primeiras horas do dia, a comunicação sonora emitida pelo pequeno filhote chamou a atenção. O som característico, semelhante a um choro, indicava que o nascimento havia ocorrido havia pouco tempo e que o recém-nascido aguardava pelo momento de ser alimentado. A constatação da presença da dupla mobilizou, na manhã deste sábado, dia 26, profissionais do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Pelotas (PMP-BP) e pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade do Extremo Sul de Santa Catarina (Unesc). A instituição acadêmica é a entidade encarregada de executar as ações de campo no trecho classificado como Setor B do programa ambiental. Os trabalhos de atendimento começaram logo cedo. Conforme detalhou a coordenadora do Setor B do PMP-BP e responsável pelo Museu de Zoologia da Unesc, Morgana Gaidzinski, as equipes especializadas foram formalmente acionadas por volta das 8 horas. Com a notificação em mãos, os técnicos partiram prontamente em direção ao ponto informado. Para assegurar que o perímetro permanecesse inviolado e evitar que pedestres ou curiosos se aproximassem indevidamente dos espécimes antes da chegada dos biólogos e veterinários, a operação recebeu o suporte direto dos Bombeiros Voluntários de Jaguaruna, que atuaram na contenção preventiva da área. Assim que os especialistas chegaram ao local exato do encalhe reprodutivo, as barreiras físicas de isolamento foram instaladas. O protocolo estabelecido para a situação prevê que mãe e filhote recebam acompanhamento técnico diário ao longo de, no mínimo, três semanas consecutivas. Essa janela de observação prolongada é fundamental para avaliar detalhadamente a evolução clínica e o ganho de massa corpórea do recém-nascido. Durante todo esse período inicial de desenvolvimento, os elefantes-marinhos permanecem estritamente fora da água, estabelecendo um vínculo constante na faixa de areia enquanto ocorre a fase de amamentação. O processo biológico de nutrição da espécie envolve características bastante particulares. O leite secretado pela fêmea de elefante-marinho-do-sul apresenta uma concentração extremamente elevada de lipídios. Essa riqueza em gordura é o fator determinante que viabiliza o rápido crescimento e o ganho substancial de peso do filhote em poucos dias. Por outro lado, a dedicação materna impõe um grande desgaste à fêmea. Ao longo de aproximadamente três semanas de lactação, a mãe permanece em solo e praticamente não consome nenhum tipo de alimento. Para continuar produzindo um leite altamente calórico e manter a sobrevivência do filhote, ela passa a consumir exclusivamente as próprias reservas corpóreas de gordura acumuladas previamente no oceano. O registro ganha contornos científicos de grande relevância devido à excepcionalidade da localidade escolhida pelo animal. A costa de Santa Catarina não integra as áreas usuais de reprodução do elefante-marinho-do-sul, espécie que costuma buscar regiões mais austrais para conceber suas crias. A coordenadora Morgana Gaidzinski ressalta que o episódio foge dos padrões habituais de ocupação da orla do estado. Segundo a especialista, o litoral catarinense não funciona como berçário natural da espécie. Ela relembrou, contudo, que outro caso com características semelhantes já havia sido documentado pela comunidade científica há dois anos, no município de Garopaba. Em razão da sensibilidade do período pós-parto, os profissionais de conservação emitiram um alerta urgente à comunidade e aos frequentadores das praias da região. A principal orientação é que a população respeite o cordão de isolamento, evite deslocamentos até o ponto onde os animais descansam e impeça a formação de aglomerações no entorno. O distanciamento estrito é uma medida de sobrevivência para o filhote. De acordo com as advertências feitas pela coordenação do projeto, a presença excessiva de pessoas nas proximidades imediatas pode causar estresse severo à mãe. Sob condições de perturbação e ameaça humana, a fêmea corre o risco de abandonar o filhote em terra, o que inviabilizaria a continuidade da amamentação e colocaria em risco a vida do recém-nascido. A estrutura de vigilância ecológica na região faz parte de uma atuação contínua. Em novembro de 2025, a Unesc deu início ao monitoramento sistemático da orla marítima no segmento compreendido entre o Balneário Rincão e o município de Jaguaruna. Essa faixa costeira corresponde integralmente ao Setor B do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Pelotas e cobre uma extensão aproximada de 58 quilômetros contínuos de praias. O trabalho conduzido pelas equipes do PMP-BP é voltado ao registro, diagnóstico e acompanhamento diário da fauna de aves, répteis e mamíferos marinhos que alcançam a costa, oferecendo atendimento tanto a animais vivos debilitados quanto a carcaças para estudos científicos, além de prestar esclarecimentos e orientação preventiva à sociedade. A execução contínua das atividades do PMP-BP decorre de condicionantes do processo de licenciamento ambiental em nível federal, coordenado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Essas obrigações mitigatórias estão vinculadas às operações de pesquisa e aquisição de dados geológicos desenvolvidas pela empresa TGS na Bacia de Pelotas. Para colaborar com os trabalhos de conservação ou comunicar a presença de animais marinhos encontrados nas faixas de areia, vivos ou mortos, a comunidade dispõe de um canal direto de acionamento telefônico por meio do número (58) 48183-8663. As equipes técnicas recomendam que as pessoas entrem em contato imediatamente e mantenham distância segura dos espécimes até a intervenção dos especialistas.
Fonte: TNSul







