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”Tenho medo de uma tragédia”: casal vive sob risco de deslizamento no bairro Progresso, em Criciúma

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”Tenho medo de uma tragédia”: casal vive sob risco de deslizamento no bairro Progresso, em Criciúma

Risco duplo de desabamento mantém moradores em alerta no bairro Progresso, em Criciúma Após tempestade histórica ultrapassar 140 milímetros em 24 horas, terra cede na encosta e Defesa Civil formaliza notificação para desocupação de residências; famílias resistem em deixar o local O barulho da chuva contra o telhado, que em outros tempos trazia a sensação de acolhimento dentro de casa, transformou-se em prenúncio de vigília e apreensão na Avenida Progresso, localizada no bairro Progresso, em Criciúma. Para o ferreiro Carlos Oliveira, de 56 anos, e sua esposa, Adriana Padilha Felício, de 49 anos, o cotidiano dentro do próprio imóvel passou a ser pautado pela incerteza da estabilidade do solo sobre o qual vivem. O terreno ao redor da moradia vem sofrendo movimentações sucessivas de terra. Diante do desgaste provocado pelas intempéries, o temor de que uma nova precipitação volumosa desencadeie uma tragédia de grandes proporções tornou-se uma sombra constante na rotina do casal. A vulnerabilidade do endereço ganhou contornos ainda mais graves após a última segunda-feira. Naquela data, os índices pluviométricos de Criciúma registraram um acumulado superior a 140 milímetros em um intervalo de apenas 24 horas. O montante representa um volume de água correspondente a mais de um mês inteiro do padrão esperado para o período na cidade catarinense. Com a terra completamente encharcada pelo dilúvio recente, a encosta cedeu em volume ainda mais expressivo. O episódio aprofundou uma situação de perigo estrutural que já dava sinais anteriores, expondo a fragilidade física do terreno e deixando a edificação sob iminente ameaça de soterramento. O medo sentido por quem reside no ponto mais baixo da encosta é ampliado pela configuração urbana do local. Acima da casa habitada por Carlos e Adriana, existe uma segunda moradia, edificada na cota superior do morro. Caso o barranco sofra uma ruptura generalizada, as consequências não envolverão apenas a descida da massa de terra: a própria sustentação do imóvel superior poderá colapsar, arremessando toda a estrutura de alvenaria diretamente contra a residência inferior. Dessa forma, o cenário desenhado pelo relevo cria um risco mútuo e simultâneo. Uma eventual movimentação em grande escala tem o potencial de atingir ambas as famílias ao mesmo tempo, comprometendo tanto os que vivem no platô de cima quanto os moradores da casa situada abaixo. Essa ameaça latente afeta profundamente o descanso de Adriana. Ela relata que a chegada da noite e a falta de visibilidade intensificam a tensão, tornando o sono contínuo algo praticamente impossível. Segundo a dona de casa, qualquer ruído vindo do quintal ou da parte posterior do imóvel durante a madrugada é suficiente para interromper o repouso com o sobressalto do perigo. Apesar da constatação visual da instabilidade geológica e do perigo compartilhado com a vizinhança, o casal reluta em abandonar o endereço. Carlos define o local como o seu próprio cantinho, evidenciando o vínculo afetivo e a história pessoal estabelecida naquele espaço ao longo das últimas décadas. A trajetória de Carlos na cidade carbonífera começou há três décadas. Nascido no município paranaense de Mamborê, nas imediações de Campo Mourão, o trabalhador metalúrgico fixou residência em Criciúma em 1994. Pai de dois filhos — uma mulher que mora atualmente em Braço do Norte e um rapaz domiciliado no bairro criciumense de São Defende —, ele dedicou anos de esforço braçal para consolidar sua morada na Avenida Progresso. A fragilidade do solo no terreno, no entanto, não é decorrente apenas da força desmedida da última tempestade. Meses antes da chuva torrencial de segunda-feira, Carlos deu início a obras para ampliar o espaço construído da residência. Durante as intervenções e movimentações mecânicas na terra, ele percebeu os primeiros deslocamentos no barranco e optou por suspender temporariamente a execução do serviço. Naquele momento inicial, medidas paliativas foram adotadas na tentativa de conter a encosta, mas as chuvas sucessivas continuaram a desgastar a base do terreno. Antes do evento climático extremo desta semana, a Defesa Civil municipal chegou a comparecer ao endereço e fornecer lonas plásticas para recobrir os pontos expostos, tentando impermeabilizar o solo e frear o processo erosivo. Contudo, a magnitude da precipitação de mais de 140 milímetros superou qualquer barreira provisória, desestabilizando a área em proporções muito mais severas. O coordenador da Defesa Civil de Criciúma, Tadeu Vassoler, acompanha a situação do imóvel de perto e explicou a dinâmica técnica que levou ao agravamento do risco geológico. Segundo o coordenador do órgão de proteção, houve uma alteração nas características originais do relevo para a realização da obra de ampliação, o que acabou deflagrando o processo de instabilidade. Vassoler esclareceu que, durante a escavação inicial, ocorreu o primeiro deslizamento de terra. O morador interrompeu os trabalhos, tentou reorganizar o terreno e executou procedimentos com o objetivo de restabelecer a contenção. No entanto, o talude voltou a ceder de forma mais ampla, quadro potencializado pelo volume extraordinário de água registrado no início da semana. A avaliação técnica do órgão municipal é enfática: o risco não permite que as estruturas continuem habitadas. A orientação dos técnicos é para que ambas as casas sejam completamente desocupadas de imediato, tanto o imóvel do casal que fica voltado para a Avenida Progresso quanto a construção localizada nos fundos, no patamar elevado do morro. Vassoler pontua que é imprevisível mensurar o comportamento da encosta caso novas chuvas da mesma intensidade voltem a cair sobre a cidade. A despeito dos alertas oficiais e da gravidade técnica apontada pelas vistorias, as famílias das duas moradias manifestam forte recusa em sair. Conforme relatado pelo coordenador da Defesa Civil, as interlocuções diretas com as moradoras revelaram uma postura idêntica e taxativa de permanência nas estruturas condenadas. Para resguardar o município e certificar formalmente a advertência de perigo de morte, a Defesa Civil de Criciúma está elaborando um termo oficial de notificação. O documento registrará por escrito a exigência de evacuação e a recomendação expressa para que os moradores busquem abrigamento seguro. Caso as famílias insistam na recusa de abandonar as casas, deverão assinar o termo, assumindo formalmente a ciência do perigo e a responsabilidade civil pela decisão de ficar no ponto crítico. Enquanto a tramitação do documento é finalizada, a Defesa Civil mantém o endereço sob vigilância frequente. De acordo com Tadeu Vassoler, as equipes realizam vistorias de monitoramento no terreno todas as semanas, por vezes repetindo as inspeções mais de uma vez ao longo de sete dias para aferir a evolução das trincas e o estado da massa de terra. O impasse expõe o doloroso dilema vivido por famílias da periferia urbana, que se veem encurraladas entre os laços materiais e afetivos de uma vida inteira de trabalho e a força implacável dos fenômenos climáticos. Enquanto o barro segue instável nos fundos da propriedade, Carlos e Adriana permanecem vigilantes, cientes de que cada nuvem carregada no céu de Criciúma renova o teste de resistência da encosta que cerca o seu lar.

Fonte: Sul in Foco

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